Descubra a jornada de uma mãe atípica neste especial dedicado ao Dia das Mães. Conheça a história de Giseli Alencar, 34 anos, mãe do Davi (TDAH) e do Ian (TEA).
Sinceramente? A primeira vez foi completamente sem planejar, então foi um susto! Eu tinha 19 anos de idade, estava noiva… Imagina? Não me via sendo mãe tão nova daquele jeito. Chorei muito no dia, mas minha mãe me consolou e me apoiou, como em todos os momentos da minha vida! Foi pouco tempo para eu já amar Davi com todas as forças do mundo! Já com Ian, estava há 2 anos sem tomar anticoncepcional, então estava meio que, de certa forma, esperando a qualquer momento ficar grávida. Porém, assim que descobri a gestação, entrou a pandemia, então foi muito preocupante, tudo muito novo, de novo. E 10 anos depois da primeira, então não sabia nem o que esperar (risos).
Mesmo sem saber, minha mãe educou a mim, minha irmã e meu irmão, usando Criação Neurocompatível, então hoje eu vejo o quão importante é isso. Naquela época não se usavam esses termos, mas ela sempre dizia que “quando vc tiver seus filhos, vc vai entender”… E é EXATAMENTE o que eu entendo hoje.
De não ser uma mãe para eles como minha mãe foi e é para mim.
Alguns marcam mais, é claro. Mas quando Davi participou de um teatro na escola pela primeira vez; Quando ele trocou as faixas no karatê; Quando ele pegou algumas moedinhas do cofrinho e me deu pra ajudar a pagar a conta de luz; Quando levei ele em uma festa para ficar até de madrugada pela primeira vez; Quando ele me contou que estava namorando (sim!)… Já com Ian, ele é um foguete de novidades à todo momento… Cada conquista dele é comemorada, como quando ele voltou a falar; Quando ele aprendeu a dar tchau, jogar beijos ou fazer caretas após os 2 e 3 anos de idade… Em abril mesmo, ele aprendeu a pular e entrou sozinho no pula-pula, foi uma conquista e tanto! Mas todos os momentos são especiais com eles.
Olha, não consigo lembrar, de verdade! Eu sinto que nasci pra ser mãe, e de meninos (risos), mas sei que eu tinha inúmeras preocupações, ainda mais sendo mãe solo durante 5 anos, do Davi. Mas eu não consegui amamentar o Davi exclusivamente, e aos 2 meses de idade ele simplesmente desistiu de mamar. Me senti MUITO impotente… Já com o Ian, sempre soube que ele era diferente, e até os 8 meses dele, eu não compreendia, mas sabia que enfrentaria o mundo se fosse preciso, por ele. É tudo por eles!
Posso responder que tudo? Amo o fato de saber que meus filhos contam comigo pra qualquer coisa. Estou sempre disposta por eles. Mesmo que nos piores dias, sempre há espaço no dia para eles, sempre paro para ouvir, brincar, ajudar. Apesar de eu não ser uma pessoa de contato físico, meus filhos amam me abraçar, beijar, acarinhar.
Eu me culpava por não conseguir retribuir as demonstrações de afeto físico aos meus filhos. Eu não gosto de contato físico, sou hipersensível ao toque, mas a partir do momento que descobri isso, parei de me culpar. Eu sentia que tinha que abraçar e beijar meus filhos a todo momento, por conta mesmo dessa romantização. E também me culpava por não ter conseguido amamentar o Davi por mais de 2 meses, mas ele foi muito bem alimentado de outras formas e está tudo bem também!
Eu sempre soube que meus filhos eram diferentes… Davi sempre foi muito quieto, desatento, não reclamava de nada, sempre foi muito disciplinado e obediente. Mas tivemos alguns altos e baixos em certos momentos da vida, onde percebi que precisava procurar alguma orientação… Já com Ian, desde os primeiros meses de vida eu soube que ele era fora da curva, mas com 8 meses, quando ele começou a fazer movimentos esteriotipados com mais frequência, eu já comecei a investigar. Ele fez tudo que toda criança faz no tempo certo (marcos de desenvolvimento) mas com 1 ano e 4 meses ele parou de falar totalmente… foi quando decidimos trocar de pediatra. Então começamos a investigar mais de perto, cada movimento, cada nova descoberta, e quando ele tinha 2 anos e 1 mês veio o diagnóstico: Autismo Infantil com Comorbidade de Atraso no Desenvolvimento da Linguagem. E 15 dias depois, Davi sendo encaminhado para o neurologista para fechar o diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, com Polo Desatento. Meu mundo virou de cabeça pra baixo!
O capacistismo e negacionismo de algumas pessoas que eu achava que nos amavam… Muitas pessoas se afastaram, outras me diziam que eu estava procurando “doença” nos meus filhos, pois eles não tinham “cara de autista” nem “cara de TDAH” (como se houvesse alguma cara para ter)… No mais, a gente vai com a cara, força e coragem mesmo, cansada, com sono, sem dormir, sem tempo pra tomar banho, com o cabelo despenteado, com as unhas por fazer… Isso a gente vai deixando pra depois, o importante é que eles tenham uma vida digna!
Não é nem um pouco fácil… Muito pelo contrário, fiquei muito tempo somente dedicada à eles. Fechei minha loja, deixei de ir a muitos lugares, me afastei da igreja… Hoje eu sei o quanto isso é importante, então arrumei um novo emprego, faço alguns trabalhos de casa, mas sempre que posso, eu saio para me divertir com minhas amigas, com meu esposo, com meus filhos, com minha família. Meu esposo é um super parceiro de rolê, mas também ama ficar em casa assistindo tv (risos).
O maior medo de toda mãe atípica é com relação a sociedade, que não está preparada para receber pessoas neurodivergentes, infelizmente. Há bullying, capacitismo, inclusive dentro das áreas que deveriam proteger essas pessoas: saúde, educação, ação social… Quando o mundo tiver completamente seguro com relação a isso (o que sabemos que é uma utopia) nós mães atípicas não teremos medo, pois nossos filhos são capazes de qualquer coisa, basta que sejam inclusos!
Antes eu me preocupava muito. Já deixei de ir à diversos lugares para não ouvir certas coisas… Hoje eu entendo que o primordial é a segurança dos meus filhos, então não me preocupo nem um pouco com as críticas, olhares e julgamentos.
O DIAGNÓSTICO SALVA VIDAS, NÃO É O FIM, É SÓ O COMEÇO PARA UMA VIDA INTEIRA QUE PODE SER MARAVILHOSA!
Eu finalmente me entendi como uma pessoa neuroatípica também! Isso me abriu caminhos que nunca imaginei trilhar. Passei a me ver de forma respeitosa e não me culpar mais por coisas que já aconteceram. Me tornei ativista da causa atípica e levar conscientização para todos os lugares.
Nossa! É de extrema importância… Eu não estaria aqui hoje (literalmente) se eu não tivesse uma rede de apoio.
Minha mãe e meu pai se mudaram para cima da minha casa logo após os diagnósticos. Eles são a base da minha rede de apoio. Eu faço terapia desde a gestação de Ian, e hoje faço tratamento medicamentoso com psiquiatra, pois entrei em um quadro de depressão muito recentemente. Meu esposo é muito parceiro e dedicado à nossa família, então fica mais leve essa jornada. E também posso contar com meus irmãos e um grupo de amigos, mesmo que pouquíssimos, que estão sempre dispostos a nos ajudar.
Acho que eu não me adaptei até hoje (risos), cada dia é um novo dia, a gente vai se reinventando e, no final, da tudo certo.
Conto com a minha rede de apoio, deito na minha cama e vou ver dorama (risos), sem culpa nenhuma, sem neura, sem arrependimentos. A gente precisa entender que não somos robôs. E todo mundo precisa de um descanso de vez em quando.
Eu não consigo dormir de outra roupa sem ser pijama. Atualmente eu prefiro ficar em casa com Ian de pijama também, pois ainda amamento (olhem como o mundo da voltas! O Ian tem 3 anos e 7 meses e ainda mama no peito para dormir, nas crises sensoriais ou momentos que precisa de acalento)…
Com certeza! E eu amo usar!
Mostrando que todos os corpos podem ser sensuais, basta que a gente aceite que somos todas diferentes, que geramos vidas dentro de nós e que as marcas que ficaram são marcas de amor sincero e puro, não devemos nos envergonhar delas!
Façam terapia, mamães! Tirem um tempinho de qualidade pra vocês. Aquele diazinho de fazer vários nadas, sabe? Skincare, unhas, hidratação nos cabelos, pratiquem exercícios físicos, banho de sol ajuda bastante também. Tomem muita água. E comprem uma lingerie linda.
Tomar um banho juntos, deixar as crianças com a rede de apoio e ficar despreocupadas, pois elas estão em ótimas mãos! Sair um pouquinho, mesmo que seja para dar uma voltinha a pé, de mãos dadas, comer algo gostoso, partilhar tarefas simples em casa, assistir um filme ou série juntos, enfim! Temos infinitas possibilidades, basta a gente querer que dê certo.
Essencial. Quem é mãe vai entender… A gente perde a nossa identidade levamos muito tempo para nos reconhecermos como mulheres. Por isso é muito importante tentarmos nos reconectar com nós mesmas, cuidando da autoestima principalmente.
Eu lidei até que bem por ter uma genética que me ajudou bastante, porém meu segundo puerpério durou muito mais tempo que o esperado, se transformando em depressão. A partir daí ficou bem difícil lidar com tudo, ainda mais após o diagnóstico dos meus filhos. Depois de começar com o tratamento com medicamentos, eu decidi comprar roupas mais condizentes com meu estilo, cortei meu cabelo bem curtinho após passar por uma transição capilar, tenho tentado usar maquiagem e acessórios no dia-a-dia…